O termo da moda por aí, criado pelo visionário e guru-do-momento Tim O’Reilly, é Web 2.0. Não vou entrar em detalhes sobre os vários aspectos que definem esse novo jeito de fazer e usar a Internet, mas quero ressaltar um que é muito importante: o controle do leitor sobre a informação que ele vê.
Em programas que a gente usa no computador, isso já acontece. É o usuário quem manda. Ele tem que aprender a usar o Excel e depois faz o que quiser com essa ferramenta.
Na Internet, a vantagem é que além da ferramenta (um site que se comporta como um programa), o usuário tem um monte de informação pra trabalhar em cima.
Um exemplo:
Num site de notícias, eu mando mostrar uma lista das últimas 30 matérias escritas pelo autor X, que contenham a palavra Y.
Ou…
Num blog, quero que só apareçam os comentários de pessoas com mais de 15 pontos na escala de confiança do site, o que deixaria de fora pessoas que falam bobagem o tempo todo (exemplo aqui).
Tá, e como vou fazer um jornal online assim?
Aí que mora o xis da questão. Desde o começo o jornalismo segue um modelo: os editores decidem o que é importante, decidem o que entra no jornal, decidem o lugar e o destaque dado a cada informação.
Esse modelo tem se provado muito eficiente, mas pode ser melhorado. Os editores diagramam e editam o jornal com um público-alvo médio em mente. Na época do papel não tinha como fazer um jornal diferente, especialmente editado pra cada um de nós. Agora tem.
Os editores, no entanto, vão precisar abrir mão de grande parte do controle que exerciam no passado. Claro que os leitores têm a necessidade de alguém com faro pra dizer a eles o que é a notícia do dia. Mas isso só vai acontecer se o leitor quiser saber a opinião do editor.
Mais um exemplo:
Hoje entrei de férias. Não quero saber nada de economia, finanças ou política. Só amenidades. “Site de notícias, mostre-me o que eu pedi”.
Num caso desses o editor está de mãos atadas. O cliente é quem tem razão e o site deve dar o que ele pede. A personalização está cada vez mais fácil e um negócio chamado Hipermídia Adaptativa explica algumas maneiras de se fazer isso, com destaque para a filtragem colaborativa, modelos de usuário e de domínio, entre outros .
Agora, digamos que um site de notícias tenha uma seção de comentários. Os editores desejam que ninguém fale palavrão, faça pichações ou poesias de porta de banheiro por ali. Querem um debate de alto nível, com idéias construtivas que contribuam com a discussão.
Por outro lado, tem um pessoal entra pra desabafar, xingar quem os incomoda, defender suas causas, vender uma bicicleta ou discursar no palanque. Aí está o nosso conflito de interesses.
Para resolver este conflito podemos recorrer às seguintes soluções:
Alternativa 1 – Filtrar todos os comentários incluídos pelos leitores ANTES de eles entrarem no ar, como fazem alguns sites. Neste caso os editores vencem, mas com o revés de arranjarem uma trabalheira adicional e comprometerem o caráter imediato e ágil do site.
Alternativa 2 – Deixar correr solto, com base na democracia e na liberdade de expressão. Deste modo vencem os pichadores, que podem escrever de tudo sem restrição, mas perdem os editores e principalmente os leitores silenciosos, forçados a ouvir um monte de bobagem.
Alternativa 3 (a mais indicada, na minha opinião) – A auto-regulação. Também conhecida como seleção natural ou lei da oferta e da procura. Os próprios leitores decidem o que querem ver (olha a Web 2.0 aí). As ações dos leitores afetam tanto o conteúdo exibido para eles quanto o exibido para todos. O coletivo (salve Marx) decide o que é melhor para o indivíduo.
Resumindo
Dei todas essas voltas pra dizer que quem faz um site com a participação dos leitores tem que se conformar em não ter controle sobre ele. Hoje em dia sites devem ser dinâmicos e sociais, evoluir naturalmente em diversas direções, e o “criador” deve ter pouca influência. O que temos que desenvolver e aperfeiçoar são mecanismos pra própria multidão se regular.