Jornalismo digital de Base de Dados é mesmo novidade?
{ Junho 21st, 2007 }
Recebi por e-mail a indicação:
Já está disponível para livre acesso on-line ( e para vendas on demand a EURO 25,00) o livro-coletânea Jornalismo Digital de Terceira Geração, que reúne artigos apresentados durante as “Jornadas Jornalismo On-line.2005: Aspectos e Tendências”.
O download é gratuito.
Via: http://gjol.blogspot.com/2007/06/jornalismo-digital-de -terceira-gerao.html#links
Dei uma olhada no PDF, e à primeira vista a apropriação do termo “base de dados” para falar de um modelo de apresentação de conteúdo jornalístico é que saltou aos olhos…
A Suzana Barbosa traz várias afirmações coerentes, quando, exemplificando com XML, explica que a separação do conteúdo e da apresentação dão mais flexibilidade na construção de sites.
Mas diz em um momento:
“Para o jornalismo digital, as bases de dados são definidoras da estrutura e da organização das informações, bem como da sua apresentação.”
Bases de dados já são recursos bem antigos e estão por trás de praticamente todas as aplicações na web, do google aos blogs. E podem ser usadas de inúmeras formas.
<parêntese>
A clássica estrutura de aplicações web de 3 camadas é composta por 1-Base de dados (ex: MySQL), 2 - servidor (ex: PHP), 3 - cliente (HTML+CSS).A estrutura da base de dados - que não é a melhor para consumo de informação jornalística - raramente deveria transparecer para o usuário. A função do jornalista deveria ser criar interfaces e uma arquitetura da informação para que o usuário entenda e consiga consultar com eficiência o que está armazenado na BD.
É mais ou menos o que Elias Machado também fala: “cabe ao jornalista participar de modo ativo do desenho destes sistemas complexos de produção e gestão de conteúdos.”
A definicão da Wikipedia:
“Bancos de dados (ou bases de dados) são arquivos ou sistemas com uma estrutura regular que organizam informações. Essas estruturas podem ter a forma de uma tabela: cada tabela é composta por linhas e colunas. As informações utilizadas para um mesmo fim são agrupadas em uma base de dados.(…) A apresentação dos dados geralmente é semelhante à de uma planilha eletrônica“
</parêntese>
A própria Suzana reconhece que desde o final dos anos 90 BDs são usadas por todo lado. Mas conclui destacando uma novidade:
“Só que, agora, o uso das BDs é orientado por uma outra lógica para a estruturação e apresentação das informações.
Lógica essa que contempla, como elementos definidores da utilização de bases de dados no jornalismo digital de terceira geração - segundo a abordagem conceitual apresentada - as noções de resolução semântica, metadados, relato imersivo ou narrativa multimídia, e jornalismo participativo.”
Exercitando a lógica:
a) Se todos concordamos que as bases de dados são ubíquas no mundo das aplicações web já faz alguns anos,
b) Se as bases de dados são usadas em todo tipo de site, inclusive os jornalísticos,
pode-se concluir que
c) Falar de jornalismo digital feito com BDs não é novidade nenhuma,
d) É sinônimo de qualquer tipo de jornalismo produzido na internet hoje.
Seja jornalismo participativo, narrativa multimídia ou o que for, vai usar bases de dados de uma maneira ou de outra. A não ser que a produção seja artesanal e sem a integração com o sistema. Era assim no Unaberta em 1998, quando criávamos todo dia uma página HTML no frontpage. Quem ainda trabalha dessa maneira - inclusive usando o Flash como recurso multimídia isolado - parou no tempo.
Fico me perguntando:
- Se considerarmos bases de dados na definição da Wikipédia, o que seria então o “jornalismo de Base de Dados”?
- Quando os autores defendem o formato de BD para “APRESENTAÇÃO” de conteúdo, o que significa isso? Dar uma planilha pro leitor?
Na minha humilde e iletrada opinião há uma confusão de conceitos aí - se bem que tudo é relativo no mundo das comunicações. Cria-se um significado todo especial de Base de Dados para ser usado apenas no jornalismo digital. Se é isso, então não chame de Base de Dados, ora. Confunde mais do que esclarece e dá margem a respostas como essa minha
Suzana também escreve:
“Por outro lado, uma nova metáfora certamente estará configurada numa etapa posterior de desenvolvimento para o jornalismo digital: a quarta geração, na qual bases de dados estarão integradas nos sistemas publicadores, assegurando mais agilidade e qualidade à construção das narrativas, por um lado, e, por outro, consolidando um processo industrial de produção nojornalismo digital(Schwingel,2005).”
Como???? Em 2005, alguém diz: “bases de dados estarão integradas nos sistemas publicadores”?
Sistemas publicadores estão integrados a bases de dados no mundo inteiro! Não existe um sistema publicador sem base de dados. Por mais tosco que seja, qualquer sistema publicador usa banco de dados - e isso não é grande coisa!
O importante é ter “informação reutilizável”. Dados que podem ser somados, comparados e integrados entre si - complementando os grandes blocos de texto que o computador só consegue mostrar e não “entende”. Tudo armazenado em banco de dados, óbvio, mas não importa o banco nem a linguagem de programação.
E não vamos apresentar uma planilha igual ao BD pro leitor. TUDO é possível quando se trata de programação de sistemas. Não existe desculpa. O que faltam são idéias para apresentar de forma nova os dados para o público, sem reutilizar formatos limitados pelas tecnologias do passado.
A informação jornalística não deve ser APRESENTADA ao usuário da mesma maneira que é consultada pelo programador. Qualquer bibliografia de usabilidade deixa isso bem claro. O programador (ou jornalista, ou ‘arquiteto da informação’, o que seja) usa a base de dados e apresenta a informação do jeito que bem entender. A base de dados potencializa a reutilização dos dados e permite formatos que talvez nem sejam considerados jornalismo, mas podem ser mais eficientes na transmissão de informação.
Era isso. Só falo dessas coisas nos corredores, mas acho que pode ser proveitoso discutir. Se falei alguma besteira por favor me corrijam.
Também podem ignorar tudo que eu falei, afinal não está baseado em 250 bibliografias como o artigo da Suzana, apenas em observações do mundo real.
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11 de Julho de 2007 às 13:47
Agradeço pelos comentários ao livro e ao artigo, especificamente.
Se é do seu interesse conhecer mais sobre o que alguns pesquisadores vêm desenvolvendo em torno da temática do jornalismo digital em base de dados, podes ler o livro homônimo do Elias Machado. No site do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online (www.facom.ufba.br/jol) estão disponíveis outros artigos e uma vasta produção dos membros do grupo. Tb já está lá online a tese que defendi recentemente sobre o assunto.
Cordialmente,
Suzana B.