Até que não foi tão ruim

{ Outubro 26th, 2006 }

Em 2004 eu morava em Brasília e, como sempre detestei Legião Urbana, fui pautado pelo Marca Diabo para uma exposição sobre o Renato Russo. Esses dias fez 10 anos da sua morte, então, mesmo um pouco atrasado, tem um gancho pra reproduzir o texto aqui.

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Mais (ainda) do mesmo
Exposição mostra por que Renato Russo continua destemido e temido no DF

O folheto da exposição “Renato Russo Manfredini Jr.”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, era assustador. Indagava coisas como “Quem são os Renatos que compõem a figura de Renato Russo Manfredini Jr.?” ou “Como seria ‘ler’ (isso mesmo, entre aspas!) a produção musical de Renato hoje e colocá-la em um espaço de galeria, contemporaneamente?”. O folheto ainda dizia que Russo tinha a “capacidade de expressar, sob a perspectiva do trovador solitário, a rarefação dos valores sociais e os grandes paradoxos de nossa época”. Desenhava-se um grandissíssimo programa de índio, do tipo muito apreciado pelos P.I.M.B.A. (Pseudo-Intelectuais Metidos a Besta Associados) de Brasília.

Apesar da má expectativa criada, foi uma surpresa. Mesmo quem não gosta de Renato Russo e de Legião Urbana não se sente constrangido na exposição. Pode não entender qual a importância de certas coisas ali, mas não se sente mal, o que é muito comum de acontecer quando se está na companhia de fãs ardorosos da banda.

A exposição sobre Renato Russo, mesmo sendo sobre nada relevante em sua maioria, está muito bem montada. Ela foi inaugurada no dia do aniversário de Brasília e tem a pretensão de fazer as pazes do finado músico com a cidade que ele tanto xingava. Tem uma parede enorme com uma linha do tempo da vida do cantor, contextualizada com fatos de cada época, o mapa astral (!), as roupas que ele usava no palco, móveis e enfeites (!) da casa onde ele morava, fotos de família, um quadro feito pela mãe (!), uns violões e zilhões de folhas de caderno escritas pelo líder da Legião Urbana.

Antes de ir à exposição, o Marca Diabo entreouviu uma conversa de elevador onde um amigo recomendava o passeio a outro dizendo: “Está muito legal! Tem as fotos de todos os amantes dele!”. Não conseguimos encontrar as tais fotos, talvez por não sabermos quem foram os amantes dele. Nada mais dispensável. Se fosse uma exposição sobre Jorginho Guinle, cuja profissão era playboy internacional, as fotos de suas amantes seriam a atração principal. Mas Renato Russo era músico, pombas!

A sala que abriga todos os CDs e livros de Russo exibe a típica coleção de quem tem dinheiro, repleta de caixas de CDs, discos japoneses, muita música clássica e muitos discos legais. Entre os livros estão os clássicos cabeça como James Joyce e Proust, alguns Stephen King e outros como “O guia da literatura gay e lésbica”. A eclética coleção de vinis também está exposta numa parede. Numa sala ao lado, dois CD players tocam músicas dos Beatles, Velvet Underground e outras bandas bacanas. Depois de ter olhado os livros e CDs que você nunca vai ter e de ter ouvido uma musiquinha no fone, o visitante sai de lá com a sensação de ter ido à Fnac (megaloja de livros e CDs). E o melhor, sem ver ou ouvir nada referente à Legião Urbana neste trecho da exposição, que fica no subsolo.

As folhas de caderno espalhadas por todo lado são a essência da exposição, quase sempre cheia de gente que não resiste e cantarola as letras das músicas escritas à mão. Além das letras, qualquer garrancho, rabisco feito ao telefone, lista de compras ou desenho tosco do ídolo é exposto como se fosse uma obra prima. Percebe-se aí o nível de mitificação criado em torno da figura de Renato Russo. Parece que o cara era um profeta e qualquer registro de sua passagem pela Terra, uma revelação.

Descobre-se também que o sujeito era o bambambam no inglês desde pequeno, e em seus manuscritos revela-se uma irritante mania, a de comentar tudo em inglês. Qualquer lista de prováveis músicas de um disco ou de coisas a fazer tem um “call him” ou “work in progress”.

Apesar de alguns visitantes cantarem baixinho as músicas, justiça seja feita, os curadores levaram em conta a legião de gente que não gosta do cara e nos presentearam com um agradável silêncio por quase toda a exposição. Existem aqueles caríssimos alto-falantes direcionais pendurados no teto, que só quem passa por baixo ouve a música, mas mesmo estes estavam desligados. O fã que quisesse ouvir tinha CD players fixados nas paredes com fones de ouvido.

Os discos de ouro da banda e ingressos dos shows invocavam lembranças nos visitantes: “Essa foi a fase mais melancólica dele”, explicava um fã a outro. Os monitores que fazem visitas guiadas pela exposição contam que às vezes entra alguém com um violão e começa a cantar. Um dia uma garota tentou remover o vidro que protege os CDs de Russo, alegando aos seguranças que havia dado o CD de presente a ele, e por isso o disco poderia ter seu nome. Além disso, quase todo dia aparece uma pessoa descontrolada, que começa a gritar no meio do salão e a chorar copiosamente, perguntando aos céus “por quê?” levaram seu ídolo.

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Uma resposta a “Até que não foi tão ruim”

  1. 1
    André

    tinha esquecido dessa merda.

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